TURISTIFICAÇÃO: VERÃO QUENTE

Com o verão a chegar ao fim e as altas temperaturas a deixarem de se fazer sentir, o ritmo volta a entrar nos eixos e é importante refletir sobre a onda de protestos anti-turismo a que temos assistido em alguns dos principais centros europeus.

O foco destas manifestações aconteceu em Espanha que assinalou um recorde de 75,6 milhões de turistas em 2016, sendo que destes, 17,8 milhões são oriundos do Reino Unido. Em Barcelona, em San Sebastian e nas Ilhas Baleares a tensão crescente dos últimos anos, sobre o aumento não controlado de visitantes e o impacto de plataformas como a Airbnb no mercado imobiliário local, fez-se sentir com tumultos de grupos organizados, mensagens afixadas e atitudes mais extremas contra os serviços turísticos.

Os protestos não se limitaram ao território espanhol e outros países europeus, como Itália e Croácia viram os seus centros históricos mais relevantes – destinos de férias de milhares de turistas – repletos de mensagens que ilustram o descontentamento dos residentes face ao aumento de fluxos turísticos.

No passado mês de julho, em Veneza – que recebe anualmente mais de 20 milhões de visitantes e tem apenas 55 mil habitantes – cerca de 2000 residentes marcharam pela cidade, expressando o seu desagrado pelo impacto da constante chegada dos grandes navios de cruzeiro, que causam níveis de poluição extrema, pondo em risco o ambiente delicado e a sustentabilidade da cidade. Em Roma, foi imposta a proibição de comer ou remar nas fontes da cidade e beber na rua, à noite. Medidas semelhantes foram implementadas em Milão, mas de contornos mais alargados, uma vez que no bairro de Darsena, durante a época de verão, foram proibidos desde a passagem camiões de comida até à utilização de selfiesticks.

Por outro lado, Dubrovnik, na costa da Croácia, foi vítima do que Rochelle Turner, diretora de Investigação do World Travel & Tourism Council, considerou como “cidades de património histórico vítimas da forma como construíram a sua imagem”. A cidade sofreu um aumento considerável de visitantes, desde que foi local de filmagem da popular série norte americana Game of Thrones. Os residentes não ficaram satisfeitos e foram tomadas medidas para combater a sobrelotação, tendo sido instaladas câmaras em janeiro deste ano para ajudar a limitar o número de turistas a 8 mil na cidade antiga, de acordo com recomendações da UNESCO.

Estas medidas de limitação do número e comportamento dos turistas já vêm sendo implementadas em diferentes regiões do mundo e não só no continente europeu. Há alguns anos atrás, o governo chinês prometeu criar uma lista negra de turistas para proibir os extremamente mal comportados de viajar para o exterior durante, pelo menos, dois anos. O Butão, por sua vez, restringiu o número de vistos de turismo, limitou a construção de hotéis e impôs taxas elevadas ao setor do turismo, o que fez parte de uma estratégia de gestão dos impactos negativos do turismo, ao mesmo tempo que procura um crescimento em valor e não em volume.

Perante esta onda de exaltação contra o que se tem vindo a designar de “turistificação” a Organização Mundial do Turismo (OMT) veio defender o setor, convidando as autoridades locais a fazerem mais para gerir o crescimento de forma sustentável. Em entrevista ao Le Guardian, o ex-secretário-geral da OMT, Taleb Rifai disse que o aumento do sentimento anti-turista é uma situação muito grave que precisa ser abordada de forma séria. Se gerido corretamente, o turismo pode ser o “melhor aliado” na conservação e preservação da comunidade. Assegurar que o turismo é uma experiência enriquecedora para visitantes e anfitriões exige políticas e práticas de turismo fortes e sustentáveis ​​e o envolvimento de governos e administrações nacionais e locais, empresas do setor privado, comunidades e turistas.

A OMT enumera uma série de recomendações para gerir multidões, incentivar os turistas a diversificar as suas atividades turísticas, para além da visita às atrações principais, reduzir a sazonalidade e, principalmente, atender às necessidades da comunidade local. O objetivo, segundo Taleb Rifai, não deve ser simplesmente impedir que os turistas cheguem.

Com o ambiente quente que se vive em torno das vantagens e desvantagens do turismo nas vidas das comunidades locais, importa perceber como aproveitar o crescimento do setor, sem cair na massificação dos destinos quando o número de visitantes dos grandes centros ultrapassa já largamente o número de residentes.

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